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Alunos têm dificuldade de retornar às aulas um mês após ataque a escola

07 Mai 2011 - 11h33

Um mês após o massacre ocorrido na Escola municipal Tasso da Silveira, em Realengo, na Zona Oeste do Rio, os alunos lutam para conviver e estudar no cenário marcado pelo terror. No dia 7 de abril, o atirador Wellington Menezes, ex-aluno do colégio, matou 12 crianças e feriu mais de dez estudantes. Dois ainda continuam internados, e segundo a Secretaria estadual de Saúde, sem previsão de alta.


Para apagar as marcas da tragédia, a escola passou por uma reforma. Todas as paredes foram pintadas, as salas ganharam mobílias novas, os alunos tiveram semanas de aulas diferenciadas. Em uma das atividades, o muro branco da escola ganhou um colorido especial. Os alunos imprimiram as marcas das mãos na parede e desenharam flores, corações e cenas do cotidiano, como uma partida de futebol.

Mas voltar à rotina não está sendo fácil para os 1.100 estudantes do colégio. Perguntados pelo G1 como está o retorno à escola, muitos jovens optaram pelo silêncio, como forma de tentar esquecer a tragédia e a perda dos amigos.  Em poucas palavras, uma aluna de 11 anos tenta explicar o que mudou. "Ainda é estranho. Na saída dos turnos, a porta da escola ficava lotada de ex-alunos e vizinhos. Agora, não tem mais isso, talvez só o tempo mesmo para mudar", falou a aluna do 5º ano.

Comportamento abalado e inadequado


O diretor da unidade, Luiz Marduk, conta que alguns estudantes apresentam comportamento abalado e inadequado. "Às vezes, eles ficam arredios na escola, outros já são o contrário, ficam irriquietos. Alguns estão com dificuldade de concentração. Mas temos que retornar à realidade", diz.

Diretor Luiz Marduk acha que a escola nunca mais voltará à normalidade (Foto: Tássia Thum/G1)

Diretor Luiz Marduk  conta que número de
permanência de alunos está acima do esperado
(Foto: Tássia Thum/G1)

Segundo os dados repassados pelo diretor, 34 crianças pediram transferência para outras escolas após a tragédia. No entanto, 29 estudantes solicitaram vagas para estudar na Tasso da Silveira no último mês.

O número de permanência está acima do esperado por Marduk. Ele conta que três estudantes se mudaram com a família para cidades no Nordeste do país, e outros dois alunos da turma que foi alvo do atirador saíram. Uma dessas alunas perdeu a irmã gêmea no ataque.

"Não está próximo à normalidade a frequência de alunos, mas acima de uma previsão nossa. Eu tinha uma previsão mais pessimista em relação ao retorno, em questões de números. Muitos que retornaram estão enfrentando uma mudança de comportamento inadequado, acelerado demais. Aos que ficaram e aqueles que pediram vaga aqui acho que estão mostrando, no mínimo, confiança na escola", conclui o diretor.

Baleada continua na escola


A menina Renata Lima, de 13 anos, foi uma das alunas que optaram em continuar na escola. Ela foi baleada, mas já recebeu alta. A mãe da jovem, a dona de casa Veronice Lima, conta que a filha não teve sequelas físicas, mas o lado psicológico foi afetado. A família disse que o retorno foi difícil para a menina. Segundo a mãe, em uma das vezes, a filha passou mal ao voltar para a sala onde estudava.

"Ela ficou muito nervosa porque viu outro dia na escola um homem que ela nunca tinha visto ali, então, ela ficou com medo que a tragédia pudesse se repetir. Depois do ataque, ela quis dormir comigo, não quer mais sair sozinha nem para ir à padaria, e também não quer ver filmes com cenas de tiro. Ela ficou até assustada com um passeio da escola a um museu militar, que eu acho que tinha armas e canhões expostos", declarou a mãe da menina.

Falta de segurança
Veronice que também estuda na Tasso da Silveira, mas no turno da noite, reclama da falta de segurança na escola. Ela diz que apenas uma guarda municipal monitora o lugar. O diretor Luiz Marduk também se queixa da ausência de segurança na unidade, assim como no entorno.

Alunos se abraçam no retorno às aulas na Tasso da Silveira (Foto: Fabio Motta/ Ag. Estado)

Alunos se abraçaram no retorno às aulas na Tasso
da Silveira (Foto: Fabio Motta/ Ag. Estado)


"Nós não temos aqui na escola um profissional orientado sobre as normas de segurança. O que eu tenho é um porteiro, que, na verdade, é um merendeiro readaptado para a função. Depois do acontecido, muitos falaram porque não notamos que o Wellington estava de casaco num dia quente como aquele. Não posso punir o porteiro, a função dele é apenas administrar as pessoas que entram e saem da escola. Talvez seja o momento de reacender discussões de questões importantes", ressaltou o diretor.

Procurada pelo G1, a Secretaria municipal de Educação não se posicionou sobre a questão da segurança no colégio.

A mã de Renata também reclama das poucas sessões de análise que a filha teve. Veronice afirma que, desde o ataque, a menina recebeu orientação psicológica apenas uma vez. Ela também aguarda o retorno de um representante da prefeitura para o pagamento de indenização.

"Gostaria muito de garantir o futuro da minha filha, e esse dinheiro vai servir para isso. Além do mais, ela está muito abalada e triste, então gostaria de presenteá-la com um celular, já que ela perdeu o dela no dia do ataque", disse Veronice, acrescentando que um outro filho dela já foi vítima de bala perdida em 2009, também em Realengo.

De acordo com a Secretaria municipal de Educação, desde a tragédia, um grupo composto por 15 psicólogos já atendeu mais de 380 pessoas, entre alunos, professores, profissionais da unidade, familiares envolvidos e a população da própria comunidade, além dos familiares que perderam algum parente no caso. Dentre esses atendimentos, 110 foram feitos individualmente junto aos alunos. A Secretaria informou ainda que as aulas regulares voltaram no último dia 3.

Sobre a indenização, a secretaria informou que, na próxima semana, haverá uma reunião com as famílias das vítimas para explicar como vai ocorrer o processo de reparação, que está sendo acompanhado pela Defensoria Pública.

Vítima internada


A tragédia alterou também a rotina da costureira Andreia Tavares. Desde o massacre, ela dorme no hospital para ficar próxima da filha Thayane, de 13 anos, atingida por quatro tiros. Andreia afirma que a menina ainda não sente as pernas e, de acordo com os médicos, ela corre o risco de ficar paraplégica.

Andreia disse que no dia anterior ao ataque, Thayane deu um salto de 3,62 metros na aula de atletismo. O feito lhe rendeu elogios do professor e sonhos de se profissionalizar no esporte.

"Eu falei pra minha filha que o maior salto dela ainda está por vir. A nossa fé é inabalável, se ela não se foi é porque Deus tem um plano muito bom para a minha filha", falou Andreia, que tem outra filha matriculada na escola de Realengo.

Outro aluno baleado no ataque também continua internado. O adolescente de 13 anos permanece no Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia (Into). Segundo a Secretaria estadual de Saúde, o menino passa bem e tem o quadro de saúde estável.

GLOBO.COM

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