ECONOMIA

Dólar cede com decisão do Fed, mas ainda espelha desconforto com Previdência

20 Mar 2019 - 19h00Por Antonio Perez

Após uma manhã volátil, alternando altas e baixas, o dólar se firmou em terreno negativo no meio da tarde desta quarta-feira, 20, em meio ao enfraquecimento global da moeda americana após o Federal Reserve (Fed, o Banco Central do EUA) tirar do radar uma nova rodada de aperto monetário neste ano e indicar que vai diminuir o ritmo de redução de seu balanço. Depois de descer até a mínima de R$ 3,7391, ao longo da entrevista do presidente do Fed, Jerome Powell, o dólar diminuiu o ritmo de queda na reta final de negócios e terminou a sessão a R$ 3,7676, em baixa de 0,57%.

A despeito da queda do dólar hoje, analistas descartam uma onda de fortalecimento expressivo do real no curto prazo, já que ainda há temores em relação à aprovação da reforma da Previdência. Não por acaso, o dólar desacelerou o ritmo de queda após a divulgação da proposta de alteração das regras de aposentadoria dos militares, o que mostra a sensibilidade do mercado em relação ao tema. A proposta prevê economia líquida de R$ 10,45 bilhões em dez anos - resultado de gastos adicionais de US$ 86,85 bilhões em 10 anos com a reestruturação das carreiras das Forças Armadas e economia de R$ 97,3 bilhões com alteração das regras para aposentadoria.

Segundo o economista da Quantitas Gestão de Recursos João Fernandes, a postura mais 'dovish' do Fed tende, em tese a contribuir para um desempenho melhor das moedas emergentes. No caso do real, contudo, a principal variável ainda é a questão fiscal, que só será resolvida com a reforma da Previdência. "Esse ambiente de maior liquidez lá fora contribui, mas não garante um dólar mais fraco aqui. O fato é que os estrangeiros ainda estão esperando algo mais definitivo sobre a previdência para entrar no Brasil", afirma Fernandes, que não vê o dólar em trajetória firme de queda no curto prazo.

O resultado do fluxo cambial em março (até o dia 15) mostra que os investidores estrangeiros seguem ressabiados. Em março, até o dia 15, houve saídas líquidas de US$ 5,973 bilhões pelo canal financeiro. Como entraram US$ 895 milhões pelo lado comercial, o fluxo cambial total no período foi negativo em US$ 5,077 bilhões.

Como o esperado, o Fed decidiu manter a taxa de juros na faixa entre 2,25% e 2,50%. A novidade veio nas projeções para a condução da política monetária daqui para frente. Além disso, o Fed informou que pretende desacelerar o ritmo de redução de seu balanço.

Para Sidnei Nehme, diretor da NGO Corretora de câmbio, o dólar tende a trabalhar na casa entre R$ 3,70 e R$ 3,75 no curto prazo. Enquanto contas externas brasileiras em ordem e o ambiente global favorecem a queda do dólar, os temores com a reforma da Previdência impedem apostas mais contundentes no fortalecimento do real. "O Fed 'dovish' mostra que não tem razão para o dólar subir. Mas também não se espera um forte fluxo de estrangeiros no curto prazo. O andamento da reforma no Congresso vai deixar a moeda volátil, mas dentro de uma banda estreita", diz Nehme.

O volume de negócios no mercado futuro estava em US$ 22 bilhões até às 17h30, acima da média dos últimos dias. O dólar para abril era negociado em queda de 0,29%, a R$ 3,7795. No mercado à vista, o giro somou US$ 1,1 bilhão.

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