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Psicodália

Festival Psicodália reúne mais de 5 mil pessoas em Rio Negrinho durante Carnaval

Música feminina negra foi destaque do evento

18 Mar 2019 - 12h00Por Piero Ragazzi
Festival Psicodália reúne mais de 5 mil pessoas em Rio Negrinho durante Carnaval - Crédito: Piero Ragazzi Crédito: Piero Ragazzi

O Psicodália, que começou em 2001 com o nome de Angrastock em Angra dos Reis (RJ), se mudou para Lapa (PR) e São Martinho (SC), até chegar em 2010 na Fazenda Evaristo em Rio Negrinho (SC). Em 2019 chega na 22ª edição e já se consolidou como um dos maiores festivais independentes do Brasil.

Uma das características é que o  evento é mantido com 100% da renda revertida através do público. Diferente de outros festivais, não há marcas de cerveja ou de qualquer outro produto que patrocine.

Foto Piero Ragazzi

A Fazenda possui uma excelente estrutura para receber os foliões alternativos. São cinco áreas de camping, com boa iluminação (mas sempre bom levar lanterna), duchas quentes e frias, 310 banheiros localizados estrategicamente com opção de banheiro seco, que é uma alternativa ecológica no tratamento do chamado “número dois”. A ecologia e sustentabilidade sempre foram uma preocupação do festival e por isso, foi criado o Biodália, departamento de gestão ambiental e da qualidade que atua com três metas: banheiro seco, composteiras e lixo zero.

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Para quem pensa que o festival só atrai pela qualidade das bandas, engana-se. São 26 peças de teatro, 25 filmes (nacionais e internacionais) e 48 oficinas oferecidas sem custo adicional além do valor do ingresso. E os temas são os mais variados e para todos os gostos. “Composições de Canções”, “Ritmo para quem não tem”, “Escrita Criativa: Poesia surrealista e Feminismo”, “Do caos ao camping – reciclagem e dicas de sobrevivência”, “Abelhas nativas sem ferrão – conhecer para preservar”, “Arteterapia”, “Livretos artesanais”, “Arte fotográfica e Expressão Poética", “Sagrado Feminino”, “Sagrado Masculino – Círculo de Homens” são alguns dos exemplos.

Foto Piero Ragazzi

Mesmo tendo o foco em bandas independentes, grandes nomes internacionais e nacionais do cenário musical já passaram pelos 3 palcos do festival como Ian Anderson, líder da clássica banda de rock progressivo Jethro Tull; John Kay, vocalista do Steppenwolf, Moraes Moreira, Alceu Valença, Ney Matogrosso, Almir Sater, Arnaldo Batista, Baby do Brasil, Os Mutantes, Elza Soares, Tom Zé, Sá e Guarabyra, Wander Wildner, Hermeto Pascoal, Yamandú Costa, Almir Sater, entre outros.

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Este ano, como de costume, as atrações abrangeram vários estilos. Tom Zé, Hermeto Pascoal, Pepeu Gomes, Jorge Mautner Amaro Freitas, Cordel do Fogo Encantado, Letrux, a banda chilena Chico Trujillo, Hamilton de Holanda se juntam a bandas independentes como Bandinha De Da Dó, Machete Bomb, Samuca e a Selva, Gali, Confraria da Costa, comprovando a pluralidade do evento. Porém, foi inegável e visível constatar que a música negra feminina está mais forte e unida do que nunca. Mulheres como Elza Soares, Xênia França, Anelis Assumpção, Dona Onete, Aiace e a banda Mulamba provaram isso com músicas e discursos de igualdade e empoderamento feminino amplamente ovacionados pelo público.

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Elza Soares, do alto dos seus 88 anos, já há algum tempo se apresenta sentada, mas nem isso e a gripe que ela confessou ter contraído tiram a presença de palco da “Diva do Tempo”, como ela foi representada este ano no Carnaval da Mocidade Independente de Padre Miguel, do Rio de Janeiro. Ela apresentou seu 81º álbum “Deus é mulher”, lançado estrategicamente em 2018. 

Letras como as da música “O que se cala” – “O meu país, É o meu lugar de fala, Pra que separar?, Pra que desunir?, Porque só gritar?, Porque nunca ouvir?, Pra que enganar?, Pra que reprimir?, Porque humilhar?, E tanto mentir?, Pra que negar que ódio é que te abala?” mostram a consciência social e política que uma artista do porte da Elza sabe que tem e leva essa mensagem para o público que respondeu com uma calorosa recepção, apesar da noite fria no primeiro dia de festival.

Foto Piero Ragazzi

Xênia França é o contraponto de Elza Soares. Se a Diva do Tempo já lançou mais de 80 álbuns, a baiana de 30 anos lançou seu primeiro álbum, “Xênia”, em 2017 e viu sua carreira decolar em pouquíssimo tempo. Além de participar de diversos festivais internacionais, ano passado teve sua música “Pra que me chamas” indica ao Grammy Latino na categoria melhor canção em língua portuguesa. Este ano, faz sua estreia no Rock in Rio, dividindo o palco Sunset com o cantor britânico Seal. O que provou que sua decisão de abandonar a promissora vida nas passarelas como modelo devido a descoberta da existência de “cotas” para negros foi mais do que acertada. 

Seu show foi contagiante. Pulou, dançou, sorriu, chorou. E o público reagiu da mesma forma. Foi intenso para ambas as partes. Transmitiu mensagens de espiritualidade e igualdade, além de ao final do show cantar em inglês e mostrar que está pronta para o mercado internacional.

Foto Piero Ragazzi

A paulistana de 38 anos é filha do grande músico Itamar Assumpção e prova que a qualidade musical está no sangue. Em 2018 lançou seu terceiro álbum – “Taurina” – e mesmo tendo a forte concorrência de Elza Soares, foi a grande vencedora do Prêmio Multishow de Música Brasileira – Superjuri: Melhor Disco.

“Eu fiquei muito surpresa com o prêmio [Multishow]. Eu nunca fui jurada, mas fiz curadoria para a Natura e é muito difícil. Tem que considerar muitas coisas para escolher um bom disco. Não deve ter sido fácil não dar este prêmio para a Elza Soares. Você entende o tamanho do disparate?”, afirmou Alenis em recente entrevista ao site Hypeness.

Anelis mostrou uma grande presença de palco e uma voz suave e poderosa misturando MPB, afrobeat e dub, reafirmando que é um dos maiores expoentes de uma nova geração.

Foto Piero Ragazzi

Aiace é vocalista da banda Sertanília, e no final de 2017 lançou seu primeiro disco solo – “Dentro Ali”, unindo o pop, a MPB, ritmos afro-baianos, o reggae, o jazz e o rock. Esse disco conta com uma das últimas participações de Luis Melodia, falecido meses após a gravação na faixa “Samba é sacerdócio”.

Seu show intercalou momentos de intensidade e tranquilidade na alma dos que estavam presentes na tarde de terça-feira. Aliás, logo após o show, o público foi presentado com uma chuva que, apesar das previsões confirmando que choveria desde domingo, só veio a cair no último dia de festival e lavou a alma de todos.

Foto Piero Ragazzi

Não posso deixar de citar também o ótimo show do Cordel do Fogo Encantado, uma das bandas mais influentes de Pernambuco depois da geração manguebeat. Após uma pausa de 8 anos, eles apresentaram seu mais novo álbum “Viagem ao Coração do Sol”.

O show comandado pelo vocalista Lirinha, que mistura arte cênica, poesia, dança e música, colocou todo mundo para pular freneticamente e deixou todos perplexos com tamanha vibração e sintonia dos músicos.

Para quem já foi, sabe que a única baixa do festival é a hora de desmontar a barraca e voltar para o “mundo real”. Pois durante esses cinco dias, pude comprovar que podemos viver em sociedade sem julgamentos, preconceitos e intolerância. Que o respeito, o amor e a honestidade são a base de tudo. Cito duas experiências que uma pessoa distraída como eu viveu e comprovam isso.

Foto Piero Ragazzi

Após fotografar um dos shows, saí da área reservada para a imprensa e como não sou de ferro, fui curtir um pouco do show no meio da galera. E é impossível ficar parado. Ao pular, não percebi que minha carteira e meu maço de cigarros tinham caído. Só fui notar quase uma hora depois, ao chegar na fila do restaurante para comer. Me bateu o desespero. Já imaginei o pior.

Voltei ao palco e encontrei os funcionários limpando para o próximo show. Eles não tinham encontrado nada e me pediram para ir no setor de “Achados e Perdidos”. Fui até lá quase sem esperança nenhuma. Mas eis que ao chegar lá, digo as características da carteira, e para meu espanto, não encontro só a carteira com todos os cartões e o dinheiro, mas também meu cigarro intacto. Sem faltar um.

Outro caso foi parecido: sem perceber, meu celular caiu do bolso e não notei. Eis que na mesma hora, uma mulher vem ao nosso encontro perguntando se tínhamos perdido algo, pois ela viu cair do bolso de alguém da roda de amigos que eu estava. Na mesma hora senti falta do celular. E ao procurar no chão, já não estava mais. Procuro, pergunto no bar se entregaram um celular. Me avisam novamente para ir no “Achados e Perdidos”. E lá vou eu com a esperança renovada, mas achando difícil entregarem em tão pouco tempo. Chegando lá, em menos de dois minutos sem o celular, ele já havia sido entregue e me foi devolvido.

Esses dois exemplos provam duas coisas. Que, sem dúvidas, preciso ser mais atento e que é possível viver em sociedade civilizadamente. Ser honesto não é virtude nem qualidade. Não precisa ser exaltado em manchete de jornal. Isso é obrigação. O Psicodália só comprova a cada ano que existe uma luz no fim do túnel. Uma luz de esperança. E que é possível alcançá-la. Só depende de nós sermos humanos.

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