POLÍTICA

'Zero um' no Exército e aprendiz no Congresso

28 Abr 2019 - 16h19Por Luiz Maklouf Carvalho

"Não tenho nada contra você, mas sua escolha não passou por mim", disse Rodrigo Maia (DEM-RJ) ao líder do governo, deputado Major Vitor Hugo (PSL-GO), em recente conversa na casa oficial do presidente da Câmara. Estava cheia, mas a conversa ocorreu à parte. "O tom foi amistoso", contou Vitor Hugo em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, no movimentado gabinete da liderança, no último dia 10.

"A escolha não passou realmente por ele, mas é uma relação que será construída no processo político, ao longo do tempo. Eu estou aprendendo a ser deputado e a ser líder do governo ao mesmo tempo", afirmou.

- O senhor se sente firme no cargo?

- Sim. Tenho todo o sentimento de confiança do presidente Bolsonaro e o apoio da maioria absoluta da bancada.

Baiano de Salvador, niteroiense e goiano - onde nasceu, cresceu e virou político, respectivamente -, o major do Exército da reserva não remunerada vai fazer 42 anos no próximo 31 de maio. Tivesse ficado no quartel, e mantido a performance de 01 em tudo, já estaria perto de chegar a general.

Mas houve sua mulher, a juíza de Direito Flávia Morais Nagato de Araújo, o filho João Vitor, hoje com cinco anos, a vontade de uma vida familiar mais compartilhada em Goiânia, mais próxima a Brasília. Bastou para que o major e também advogado, com OAB, tentasse, em 2014, um concurso para consultor legislativo da Câmara dos Deputados, na área de defesa e segurança nacional.

Deu 01 de novo. Assumiu em janeiro de 2015, e trocou a continência pelas excelências - os 513 deputados federais que podem precisar de consultoria técnica para a elaboração de projetos de lei.

Vitor Hugo de Araújo Almeida foi o 01 no exame nacional para ingresso na Escola Preparatória de Cadetes do Exército, em 1993. Tinha 16 anos. Repetiu a primeira colocação na mesma escola no ano seguinte - espadim entregue pelo então presidente da República, Fernando Henrique Cardoso.

'Viagem de ouro'

Na Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN) - onde o cadete Bolsonaro, da artilharia, turma de 1977, não passou de regular -, Vitor Hugo, da infantaria, foi o 01 geral, o "cadete mais distinto" e o ganhador da cobiçada "viagem de ouro" - uma longa viagem de instrução que em quase sete meses o levou para Nova York, Londres, Roma e outras cidades.

A primeira excelência a procurá-lo, na consultoria legislativa, foi o então deputado federal Jair Bolsonaro, capitão da reserva. "Quem é o 01 que chegou por aqui?", saiu perguntando, com o espalhafato do estilo e o espírito de corpo militar. Bolsonaro fez festa, bateu continência e, brincando, mandou o major pagar algumas flexões. "Eu já o admirava", disse o deputado-major. Deu consultoria a alguns projetos que Bolsonaro apresentou, principalmente na área de defesa.

Nos tempos de quartel, o major saltou de paraquedas, deu tiros, atuou na tríplice fronteira, pegou malária cinco vezes na Costa do Marfim. "Se para isso não faltou coragem, por que eu não vou ter a coragem que o Bolsonaro teve, de encarar os desafios da política?", perguntava-se de vez em quando. "Eu comecei a sentir falta de poder me posicionar."

Ao decidir, no segundo semestre da 2016, teve o apoio de Bolsonaro. "Passa a conviver mais aqui com a gente", disse o deputado.
O major se engajou. "Ele é formado no mesmo lugar que eu. Tem a cabeça muito provavelmente semelhante à minha. Quando passei a conhecê-lo de perto, a admiração aumentou mais", disse.

Com o apoio explícito do candidato a presidente, elegeu-se com 31.191 votos, 1,03% dos válidos. Só entrou porque a eleição recorde do deputado Delegado Waldir (PSL-GO) - 274.406 votos - ultrapassou o quociente eleitoral. Dos R$ 131 mil que arrecadou, R$ 76,6 mil saíram da carteira do major e da bolsa da juíza. "Não recebi nada do fundo eleitoral e partidário, e não tive tempo de rádio e TV", disse. "Todos os recursos do partido ficaram concentrados no Delegado Waldir, que também por isso teve uma grande votação."

O delegado-deputado Waldir é, como se sabe, o livre atirador que lidera o PSL bolsonarista de 55 deputados na Câmara Federal. Não tem qualquer constrangimento em criticar abertamente o major líder do governo, e em dizer, sempre que pode, que seus votos é que o elegeram.

"Não me considero devedor", diz Vitor Hugo. "O mesmo processo que o alçou à liderança do PSL ainda pode ser contestado." Ainda conversam, ele conta, aumentando os metros que faltam para a colisão.

O governo frequenta com assiduidade o gabinete da liderança, no anexo II da Câmara. No dia da entrevista ao Estado, o visitante era o ministro Ricardo Salles, do Meio Ambiente. Também já foram lá o general Santos Cruz, da Secretaria de Governo; o ministro da Controladoria-Geral da União (CGU), Wagner do Rosário; e o advogado-geral da União, André Mendonça, entre outros. Vão tratar de questões políticas e de projetos em andamento.

Bolsonaro o indicou para líder do governo no dia 15 de janeiro. "A intenção do presidente era colocar alguém em quem ele confiasse 100%", disse. Não se espere, do deputado, a amplificação dos problemas que abundam. Falta de base parlamentar, impasses no encaminhamento da reforma da Previdência, PSL se digladiando, tchutchuca e tigrão irritando o ministro Paulo Guedes na Comissão de Constituição e Justiça? Tudo do jogo, diz.

"Nós estamos num momento em que a base do governo não existe. A que existia no passado foi formada através de distribuição de cargos e loteamento de ministérios. E isso não foi feito", afirmou. "Eu não vou reunir os líderes e falar: ó, o ministério tal é teu, esse outro é teu, e a partir de agora vote comigo independentemente de qualquer tema. Isso não vai existir mais. O presidente não quer que isso exista", acredita.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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