Camara guaramirim
INTERNACIONAL

Organização turca alvo de Erdogan teme prisão de mais 300 no Brasil

27 Abr 2019 - 12h19Por Luiz Raatz e Rodrigo Turrer

A organização turca Hizmet, considerada um grupo terrorista pelo governo do presidente Recep Tayyip Erdogan, teme que cerca de 300 turcos moradores do Brasil ligados ao movimento sejam presos e sofram processos de extradição similares ao do empresário Ali Sipahi, detido desde 6 de abril. A entidade, que não é considerada um risco fora da Turquia, é liderada pelo clérigo muçulmano moderado Fethullah Gülen. Ele vive nos EUA e conta com a proteção do governo americano.

A situação de Sipahi pode colocar o governo de Jair Bolsonaro em um impasse. Se o Supremo Tribunal Federal (STF) negar a extradição, o Executivo não pode intervir. Mas se o STF permitir a extradição, Bolsonaro poderia vetá-la. Foi o que aconteceu no caso Cesare Battisti, em 2009, quando o STF decidiu que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva poderia rejeitar a extradição do italiano.

Como os EUA protegem Gülen, e como o governo Erdogan é alinhado a países como Venezuela e Rússia, tanto a extradição quanto sua rejeição podem se tornar um incidente diplomático. O governo brasileiro não se manifestou sobre o caso.

Sipahi tem 31 anos e mora no Brasil desde 2007. Naturalizado brasileiro, tem um filho nascido no País e é dono de dois restaurantes em São Paulo. Sipahi é acusado pela Procuradoria de Ancara de ser membro da organização do clérigo por ter conduzido atividades no Centro Cultural Brasil-Turquia (CCBT) e na Câmara de Comércio e Indústria Turco-Brasileira (CCITB), entidades que têm vínculos com o Hizmet e recebem verba do grupo.

"Cerca de 300 turcos vivem no Brasil e mantêm atividades com o Centro Cultural e o Hizmet, e têm situação idêntica à de Ali", afirmou ao jornal O Estado de S. Paulo Kamil Ergin, porta-voz do Centro Cultural Brasil-Turquia. "Cerca de 250 vieram para o Brasil depois de 2016, quando Erdogan classificou o Hizmet como terrorista, e 50 viviam aqui antes. São empresários, jornalistas, advogados, médicos."

O Hizmet, que significa "servir" em turco, foi considerado uma organização terrorista em 2016, após Erdogan acusar o movimento de tramar o golpe de Estado que tentou tirá-lo do poder. Em julho daquele ano, as Forças Armadas colocaram tanques nas ruas para tentar derrubar Erdogan, que conseguiu reverter o movimento.

O movimento de Gülen foi essencial para a ascensão de Erdogan e de seu Partido Justiça e Desenvolvimento (AKP), no início dos anos 2000, mas os dois grupos se distanciaram. De 2013 para cá, Gülen e Erdogan se tornaram inimigos.

Até 2016, a perseguição era velada, afirma o Hizmet. "Jornais foram fechados, algumas pessoas eram vigiadas e presas", afirma Kamil Ergin. Mas depois da tentativa de golpe, Erdogan classificou o Hizmet como grupo terrorista, o que permitiu ao Estado decretar prisões e perseguir os integrantes do movimento. "O governo cassou passaportes, prendeu milhares de pessoas, e os que conseguiram fugiram para não ser presos", diz Kamil.

Nenhum outro país ou organismo internacional considera o Hizmet, também chamado de Movimento Gülen, uma organização terrorista. O movimento se denomina uma iniciativa civil mundial, enraizada na tradição espiritual e humanística do Islã. Presente em 160 países, patrocina escolas, centros culturais e diversas atividades comerciais.

A Embaixada da Turquia no Brasil afirmou que não responderia a perguntas específicas sobre Sipahi "uma vez que ele está sujeito a um processo legal em andamento". Em nota, a embaixada afirma que o Hizmet é uma fachada para as "atividades da organização criminosa e terrorista FETÖ", grupo que estaria por trás da tentativa de golpe na Turquia em 15 de julho de 2016.

Em 2016, o governo turco exigiu a extradição do clérigo, que vive desde 1999 nos Estados Unidos. Em sua residência na Pensilvânia, ele nega qualquer envolvimento na tentativa de golpe. O governo americano rejeita deportar Güllen e diz que as acusações contra ele são "sem fundamento".

O governo de Ancara cita como evidência para a prisão de Sipahi depósitos feitos pelo empresário, entre 2013 e 2014, de 1.721,31 liras turcas (cerca de R$ 1.168) no Banco Asya, que Erdogan fechou em 2015 por ser ligado ao Hizmet. A Justiça turca ordenou o fechamento do banco e decretou que seus correntistas podem ser considerados membros do Hizmet e suspeitos de terrorismo. Segundo integrantes do movimento no Brasil, o depósito foi feito em uma conta no nome do próprio Sipahi.

O pedido de prisão preventiva de Sipahi estava decretado desde 19 de março pelo STF. Os advogados de Sipahi pediram para que ele aguarde o julgamento do pedido de extradição fora da prisão - com a retenção de passaporte ou tornozeleira eletrônica. A Procuradoria, no entanto, foi contrária ao pedido. O ministro do STF Edson Fachin determinou na quinta-feira que Sipahi seja ouvido. A oitiva do empresário está marcada para o dia 3. (Colaboraram Fernanda Simas e Renata Tranches)

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Matérias Relacionadas

Economia

Indústria catarinense vai à Argentina captar negócios em missão da FIESC

Focado no setor moveleiro, evento terá participação do governador de SC e líderes empresariais da Argentina; empresas catarinenses participam de rodadas de negócio
Indústria catarinense vai à Argentina captar negócios em missão da FIESC
Geral

PF pode interromper emissão de passaporte por falta de verba

Ministério diz que medidas estão sendo adotadas para garantir serviço
PF pode interromper emissão de passaporte por falta de verba
Economia

Para FIESC, encontro entre Lula e Trump é avanço concreto para negociações

Reunião na Malásia mostra disposição efetiva dos dois países para evolução nas tratativas sobre as tarifas; suspensão da sobretaxa de 40% e inclusão de mais produtos na lista de exceção estão na mesa
Para FIESC, encontro entre Lula e Trump é avanço concreto para negociações
Geral

A 'Netflix do Mercado Livre' existe, é grátis e você provavelmente já tem acesso a ela sem saber

Empresas que começaram vendendo produtos ou oferecendo um serviço específico agora buscam centralizar todas as nossas necessidades em um único lugar
A 'Netflix do Mercado Livre' existe, é grátis e você provavelmente já tem acesso a ela sem saber
Ver mais de Mundo