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Júri condena três envolvidos na morte do prefeito Celso Daniel

11 Mai 2012 - 12h38

O tribunal do júri decidiu condenar nesta quinta-feira (10) Ivan Rodrigues da Silva, conhecido como "Monstro", José Edson da Silva e Rodolfo dos Santos Oliveira pela morte do então prefeito de Santo André Celso Daniel, em janeiro de 2002.


De acordo com a sentença lida pelo juiz Antonio Augusto Galvão de França Hristov, "Monstro" terá de cumprir 24 anos de prisão, enquanto que José Edson e Rodolfo dos Santos foram condenados a 20 e 18 anos de reclusão em regime fechado, respectivamente.

Os três afirmaram que são inocentes e alegaram que anteriormente confessaram o crime à polícia porque foram torturados. O Ministério Público (MP) diz que a morte foi encomendada após Celso Daniel descobrir que dinheiro desviado da prefeitura para financiar a campanha eleitoral do PT para a presidência da República estava sendo usado pelos integrantes do esquema.

Ao todo, sete pessoas são acusadas do crime. Em novembro de 2010, Marcos Roberto Bispo dos Santos, que continua foragido, foi julgado à revelia e condenado a 18 anos de prisão por participar do crime. Conhecido como "Sombra", Sérgio Gomes da Silva, é apontado como o mandante. Ele trabalhava como segurança de Celso Daniel. Atualmente, ele responde em liberdade devido a um habeas corpus concedido pelo STF.

Julgamento
O julgamento desta quinta-feira começou com cerca de duas horas de atraso. Advogados de dois réus que também seriam julgados nesta sessão abandonaram o plenário e conseguiram o adiamento do júri de seus clientes para agosto. O interrogatório dos outros três acusados começou por volta das 11h30 e durou até cerca de 13h20.

Após os interrogatórios dos réus, a apresentação do promotor e dos advogados, os jurados se reuniram para avaliar seis questões: Celso Daniel faleceu em decorrência de ferimentos causados por arma de fogo? o crime foi cometido por alguém não identificado? Os réus concorreram para a prática do crime? O jurado absolve o réu? O crime foi praticado mediante pagamento? Foi utilizado recurso que impossibilitasse a defesa?

Versão da promotoria
Segundo o promotor, a quadrilha responsável pela morte seria formada por pelo menos seis homens. Ela teria sido contratada pelo empresário e segurança de Celso Daniel, Sérgio Gomes da Silva, o Sombra. O objetivo, segundo o Ministério Público, era fazer uma queima de arquivo, já que Daniel estaria descontente com o uso do esquema de arrecadação de verbas montado na Prefeitura de Santo André para abastecer um "caixa dois" do Partido dos Trabalhadores (PT).

Ligações telefônicas apresentadas pelo promotor Márcio Augusto mostram que não houve nenhuma ligação entre Ivan Rodrigues da Silva e José Edson da Silva, dois dos réus julgados nesta quinta. Em versão já apresentada por parte dos seis réus, segundo o promotor, José Edson estaria seguindo um empresário e depois, ao perdê-lo, acabou optando por sequestrar a primeira pessoa que passasse em um carro importado. Ivan foi apontado por parte do grupo como responsável por fazer uma ligação dizendo a José Edson para livrar-se da "bomba". Ele teria descoberto que se tratava do prefeito de Santo André. "Não existiu nenhum contato entre Ivan e José Edson", afirmou Márcio Augusto.

 Alegação dos réus
Foram ouvidos Ivan Rodrigues da Silva, conhecido como "Monstro" e que seria o chefe do bando, José Edson da Silva e Rodolfo dos Santos Oliveira. O juiz Antonio Augusto Hristov ouviu primeiro Monstro, que disse não ter relação com o crime. "Não tenho nada a ver. Vocês estão querendo culpar pessoas inocentes", disse Monstro em seu depoimento.

Em seguida, José Edson falou que conheceu os outros réus na prisão. Disse ainda que, logo após o crime, sofreu agressões no Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) e tortura, como choques na boca e nos pés. Já Rodolfo disse que conhecia Ivan apenas de vista, e que, na noite dos fatos, provavelmente estaria trabalhando em sua função, de borracheiro.

Questionado pelo advogado de defesa, ele explorou a versão de que foi pendurado por policiais e que recebeu choques na região genital e no ânus. Ivan e Rodolfo citaram o nome do ex-deputado federal Luiz Eduardo Greenhalgh como presença nos interrogatórios. Ivan afirmou que sofreu ameaça e Rodolfo disse que levou um tapa do ex-deputado, também militante dos direitos humanos.


Tanto o ex-deputado quanto a polícia de São Paulo divulgaram notas nesta tarde desmentindo a versão dos acusados.

 Encenação
O irmão de Celso Daniel, Bruno Daniel, compareceu nesta tarde de quinta-feira (10) ao fórum de Itapecerica da Serra e criticou o depoimento dos três réus. "Foi uma encenação", decretou Bruno, que avaliou como "constrangedora" a situação de estar em um mesmo recinto com os homens que teriam matado seu irmão. "É duro viver numa sociedade em que existam tantas injustiças e pessoas que enveredam pelo caminho do crime", afirmou.

Bruno Daniel afirma que a família não tem nenhuma dúvida de que houve um crime com implicações políticas. Segundo Bruno, tratou-se de um assassinato relacionado ao "modo como se faz política no Brasil, que conduz à existência de esquemas de financiamento de campanha irregulares, como admitiu o presidente Lula de que todos os partidos têm caixa dois."

O irmão de Celso Daniel, que viveu na França por quase seis anos após o crime, disse ainda que a família teve de cumprir dois lutos. Um pela morte de Celso, e outro em relação ao PT.
"Foi um luto pelos companheiros que agiram no sentido de acobertar o crime. Por todas as tentativas do PT de defender a tese de crime comum, sem nenhuma consistência." Bruno Daniel afirma esperar que os outros processos judiciais relativos ao caso e que abordam a questão do esquema de arrecadação que havia na Prefeitura de Santo André e investiga os crimes de corrupção e concussão tenham um fim, e que os responsáveis também sejam punidos.

GLOBO.COM

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