ECONOMIA

'Os chineses não sabem o que os EUA querem', diz John Denton

19 Fev 2019 - 09h03Por Luciana Dyniewicz

Apesar da trégua na guerra comercial entre EUA e China e de o presidente Donald Trump ter afirmado que um acordo está próximo, há uma tendência protecionista global, diz John Denton, secretário-geral da Câmara Internacional do Comércio, principal organização privada do mundo a promover o comércio internacional. Para ele, a discussão atual para reformar a Organização Mundial do Comércio (OMC) vai além do tema protecionista e precisa atingir questões como a economia digital. "Se a OMC falhar (na reforma), sua relevância será desafiada." A seguir, trechos da entrevista.

Trump anunciou estar próximo de um acordo com a China. A trégua na guerra comercial pode realmente estar caminhando para o fim da disputa?

Há uma suposição de que os EUA sabem exatamente o que querem. O que significa que os EUA têm uma visão clara de como agir. Mas uma das razões pelas quais olhamos para vários cenários é que não está clara a estratégia dos EUA. Os chineses não sabem o que exatamente é demandado deles. Sim, os EUA querem mudanças no regime que incapacita empresas americanas de investirem na China, mas também querem mudanças no modo como a China apoia estatais. Será que o alívio de barreiras comerciais será suficiente ou os EUA exigirão uma redefinição completa da propriedade intelectual? É difícil dizer se a guerra está realmente arrefecendo. O que podemos dizer é que a temperatura não está subindo.

O Brasil se beneficiou da disputa em 2018, exportando mais. Uma guerra comercial pode ter vencedores no longo prazo?

Se a disputa fizer o mundo elevar o protecionismo, será difícil determinar os vencedores. Há um argumento de que é menos provável que os EUA percam por causa do tamanho da economia doméstica e do fato de que há uma base (produtiva) que pode operar com menos interrupção do que economias mais abertas, como a australiana. O Brasil, como é menos aberto, pode não sofrer efeitos dramáticos no curto prazo, mas sim no longo prazo.

O fato de a economia americana sofrer menos dá mais poder a Trump na negociação?

O que estava tentando explicar é que tem uma visão nos EUA que, por causa da força do país, a economia pode sofrer menos. Isso não é uma visão universal, é mais política. A visão universal é que os EUA têm empresas e instituições financeiras comprometidas globalmente. Essas empresas, que são muito importantes para a economia americana, vão sofrer como consequência de uma interrupção da cadeia de valor, o que significa que salários serão atingidos e a rentabilidade vai diminuir.

A União Europeia impôs uma restrição a importação de aço, o que atinge a indústria brasileira. Há um efeito dominó da guerra?

O número de países que está analisando deixar de se comprometer com as configurações de um comércio aberto está crescendo. Há uma mudança nas bases globais e o que está retendo a guerra comercial é o fato de que ainda há em funcionamento um sistema de comércio multilateral regulamentado pela OMC. Mas a retórica que se viu na última reunião do G-20 (em dezembro) não foi tão forte contra o protecionismo como víamos antes. Cabe a grandes nações comerciais, como o Brasil, tentar manter o apoio ao sistema de abertura comercial. Vi alguns comentários do ministro da Economia (Paulo Guedes) que parecem apoiar um sistema comercial multilateral eficaz.

A OMC não está enfraquecida com as ameaças de Trump, que travou o tribunal de arbitragem?

A OMC não tem um acordo multilateral específico para lidar com a economia digital e esse é um elemento importante da economia do século 21. Isso não é algo relacionado a Trump. É um fato. Eu concordaria que o pensamento dos EUA é inapropriado, mas isso não é uma razão para se reformar a OMC. Para se reformar, é necessário que os membros estejam de acordo. Isso está acontecendo atualmente. Se a OMC falhar (na reforma), sua relevância será desafiada. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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