ECONOMIA

Crise política e exterior fazem dólar atingir R$ 3,90, maior valor do ano

22 Mar 2019 - 19h06Por Altamiro Silva Junior

O clima ruim no mercado de câmbio visto na quinta-feira, 21, após a prisão do ex-presidente Michel Temer piorou nesta sexta-feira, 22, em meio às repercussões das ameaças do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), de abandonar a articulação da reforma da Previdência. Para completar, a moeda americana teve alta generalizada hoje ante emergentes, com o temor de desaceleração da economia mundial, preocupação que foi ampliada após a divulgação de indicadores fracos da atividade na Alemanha e outros países da zona do euro, além do Japão e Estados Unidos.

O real teve o segundo pior desempenho ante o dólar, perdendo apenas para a Turquia. A moeda americana disparou quase 7% no mercado turco, com tensões envolvendo as colinas de Golan. Aqui, o dólar fechou em alta de 2,65%, a R$ 3,9016, o maior nível desde o fechamento de 26 de dezembro (R$ 3,92). Na semana, a moeda americana acumulou valorização de 2,12%.

O dólar operou em alta durante todo o dia, mas foi só no meio da tarde que superou o nível de R$ 3,90. Segundo um gestor de renda fixa, não repercutiu bem nas mesas a declaração de Jair Bolsonaro sobre o desentendimento entre Maia e seu filho, o vereador Carlos Bolsonaro (PSC-RJ). "Se a postagem de Carlos foi causa de insatisfação de Maia, lamento, mas não é motivo", disse ele no Chile. O presidente da Câmara teria tomado a decisão de abandonar a articulação da Previdência após ler mais uma postagem do vereador, com críticas a ele por não priorizar o pacote anticorrupção do ministro da Justiça, Sergio Moro. Para tentar resolver a crise, Bolsonaro deve se encontrar com Maia na segunda-feira (25).

O banco americano JPMorgan avalia que os eventos desta semana no Brasil - a prisão do ex-presidente Michel Temer, a forte queda no índice de aprovação de Bolsonaro, o desentendimento entre Maia e Carlos Bolsonaro e a tímida proposta de reforma para os militares - elevam a chance de a tramitação da reforma da Previdência sofrer atrasos e/ou ser mais desidratada do que o inicialmente esperado. A instituição, porém, acredita que as chances de a reforma ser aprovada são maiores que as de não ser e mantém seu cenário-base de aprovação das medidas até o final do ano.

Para o operador da CM Capital, Thiago Silêncio, ainda é cedo para afirmar se as altas do dólar de quinta e desta sexta-feira podem ser a nova tendência da moeda. Ainda há muitos desdobramentos pela frente, ressalta. Mas ele observa que os investidores procuraram aumentar suas proteções na moeda americana, seja no mercado futuro de câmbio, seja em derivativos. "Não é só especulação, tem demanda por hedge", disse ele. Apenas na quinta-feira, os investidores estrangeiros elevaram as posições compradas em dólar, que ganham com a alta da moeda, no mercado futuro em US$ 500 milhões, segundo dados da B3.

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