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WAGNER E O NAZISMO

Esta semana vamos tratar de um dos assuntos mais espinhosos da história da música. A relação entre a obra do compositor Richard Wagner e o regime nazista

07 Jun 2019 - 07h00Por Magnus Behling

Esta semana vamos tratar de um dos assuntos mais espinhosos da história da música. A relação entre a obra do compositor Richard Wagner e o regime nazista. Existem aqueles que apreciam a música do compositor sem restrições e preferem ignorar os seus escritos teóricos e a influência que tiveram na formação da ideologia nazista. Outros defendem que Wagner era uma pessoa detestável e que é melhor, pelo bem da humanidade, deixar a obra dele de lado. Certamente o ideal é o equilíbrio entre estas duas correntes, lembrando sempre a frase de Edward Said: “Uma mente madura deve ser capaz de admitir a coexistência de dois fatos contraditórios: que Wagner foi um grande artista e, segundo, que Wagner foi um ser humano abominável.”

Em 1981 ocorreu um concerto a princípio comum da Filarmônica de Israel. Tudo ia bem até que o maestro Zubin Mehta começou a reger o prelúdio da ópera Tristão e Isolda de Wagner. A reação da plateia foi violenta. Muitos se levantaram e saíram, outros gritaram e um idoso se aproximou do palco e mostrou a tatuagem no braço feita pelos nazistas num campo de concentração. Depois deste episódio nenhuma orquestra israelense ousou voltar a executar uma obra do compositor alemão durante muitos anos. Em 2011 Daniel Baremboim resolveu testar os limites e tentou novamente executar a mesma obra de Wagner em Israel, desta vez com uma orquestra alemã. Novamente o debate que se seguiu foi acalorado. Políticos exigiam que o maestro fosse punido e apesar de ser judeu declarado persona non grata de Israel. Mas afinal por que todo este barulho?

Richard Wagner foi um compositor de enorme importância. Sob a designação de Gesamtkunstwerk (obra de arte total) ele pregava a união de todas as artes (música, dança, teatro, artes plásticas) nos seus dramas musicais. Foi em muitos momentos um artista radical, de vanguarda, e o cromatismo de Tristão e Isolda é considerado a pedra fundamental da música do século 20. As produções que supervisionou no seu teatro em Bayreuth são exemplos do que havia de mais sofisticado. Inovações como a orquestra ser invisível para o espectador faziam com que a plateia entrasse na trama numa verdade imersão. 

A sua obra musical é basicamente o que existe de bom nele. Infelizmente ele tinha um lado B tenebroso. Manipulava as pessoas de acordo com seus interesses. Tinha casos amorosos com as mulheres de seus melhores amigos ou patronos. Criticava acidamente compositores que contribuíram decisivamente no seu sucesso. O seu antissemitismo, mesmo para os padrões da época, era assustador e seus escritos teóricos denunciando o suposto domínio dos artistas judeus foi marcante na formação de um jovem pintor fracassado chamado Adolf Hitler.

Hitler foi amigo íntimo da nora de Wagner, Winifred. Ao ser preso recebeu dela o papel que utilizou para escrever o famigerado Mein Kampf (Minha Luta). Após a morte do marido Winifred assumiu a direção do Festival de Bayreuth, evento anual dedicado à musica de Wagner. Talvez Winifred pensasse em Hitler como um bom partido. Para os netos de Wagner, Wieland e Wolfgang, era uma espécie de figura paterna. Ele por outro lado estava mais interessado em dominar o mundo do que se casar. Uma das filhas de Winifred emigrou para os Estados Unidos e começou a denunciar o regime nazista.

No pós-guerra Winifred se referia a ele em código com as iniciais USA (unser seliger Adolf, nosso abençoado Adolf). Em 1975, no final da sua vida, ainda demonstrava numa entrevista a sua total lealdade à Hitler, o que chocou a Alemanha.

Em 1945 Winifred foi afastada da condução do Festival de Bayreuth e as autoridades acharam melhor colocar no lugar os seus filhos que também tinham um passado nazista pra lá de suspeito. Quando Wieland faleceu prematuramente aos 49 anos Wolfgang numa vingança de proporções mitológicas ordenou a destruição de todas as famosas produções criadas pelo irmão para as óperas do avô. Sem a menor piedade despejou a viúva e os sobrinhos. Hoje o festival é gerenciando por duas filhas de Wolfgang e nesta família quase todos se odeiam.

Voltando à Israel e à proibição de Wagner o maestro Zubin Mehta percebeu anos mais tarde que tinha cometido um erro e declarou:

"Tocar Wagner em Israel é um tabu que não está escrito. Não há nenhuma lei em Israel que o proíba. A verdade é que eu não me dei conta da profunda sensibilidade entre os israelenses sobreviventes dos campos de concentração que foram obrigados a ouvir a música de Wagner enquanto eram submetidos a torturas e trabalhos forçados. Eu imaginava que sendo Israel um país democrático, não ocorreriam tais manifestações. Entretanto, esqueci-me daquele enorme número de judeus que tinham números tatuados em seus braços. Tenho por todos eles um profundo respeito e admiração."