O ‘Cutman’ como mentor empresarial na nova economia

Muitas alegrias, dores e ferimentos se misturam, principalmente em momentos em que são necessárias importantes e vitais decisões. Também, quando, com a euforia do crescimento, o empreendedor, eventualmente, fique cego, quanto a controles, podendo aproximá

03 Dez 2018 - 07h30Por Emílio Da Silva Neto

Há muitos altos e baixos, desde a criação de uma empresa, do zero, até transformá-la num negócio rentável.

            Muitas alegrias, dores e ferimentos se misturam, principalmente em momentos em que são necessárias importantes e vitais decisões. Também, quando, com a euforia do crescimento, o empreendedor, eventualmente, fique cego, quanto a controles, podendo aproximá-lo ou levá-lo à ruína.

            Criar algo requer, sim, uma certa dose de individualismo, para acreditar no projeto e concretizá-lo, independentemente dos que “torcem pelo jacaré” (os do contra). Contudo, atualmente, não é mais possível fazer isso sozinho, ou seja, um bom empreendedor, além de conhecer-se muito bem, tem que saber ouvir.

            Tomar decisões sozinho é uma tarefa cada vez mais difícil, se não houver com quem compartilhar as próprias angústias e incertezas, pois nenhum líder é infalível e nem tem superpoderes de herois de histórias em quadrinhos. É uma pessoa comum, que recebe prolabore ou salário, paga contas, adoece às vezes, sofre com angústias, recebe pressões de todo lado, enfim, alguém, com todas as necessidades e virtudes humanas.

            É claro que o líder precisa de alguma privacidade para tratar assuntos confidenciais, mas há sempre que se lembrar que não existe poder absoluto, apenas responsabilidade absoluta. E isto o deixa, muitas vezes, num dilema, pois ele precisa não só delegar e permitir que liderados exercitem a sua independência, como também se aconselhar com pares externos (outros empresários) ou ‘internalizados’ (profissionais independentes, tais como consultores e conselheiros, por exemplo).

            Estes relacionamentos, “vira e mexe”, sempre levam o empreendedor a um esforço extra de planejamento e gestão, pois mesmo com a atenuação da chamada ‘solidão do poder’, a visão diversa e multidisciplinar do seu entorno o faz viver, muitas vezes, de ‘salto em sobressalto’.

            Na moderna gestão empresarial, em negócios familiares ou não, a ‘governança’ sempre ‘passa’ pela constituição de conselhos consultivos ou de administração, bem como pela educação continuada da equipe executiva, com práticas que visem elevar a qualidade das decisões.

            E, na ‘velocidade da luz’ da nova economia, é preciso avaliar novas práticas que surgem a todo momento, pois este tema, ‘governança’, é a ‘bola da vez’ na gestão eficaz de empresas, em que assumem o protagonismo a profissionalização rumo à excelência profissional e o processo colegiado de decisão.

            Dentre as ideias, algumas até com alguma dose de excentricidade, há uma, por exemplo, baseada no que Vítor Belfort, um dos grandes atletas brasileiros de MMA (Mixed Martial Arts, Artes Marciais Mistas) contou, em seu recente livro.

            Ele sempre teve um conselheiro, que o chamou de Cutman, o responsável por estancar suas hemorragias nasais e cortes, amenizar ferimentos e lidar com inchaços, de forma rápida, mantendo-o dentro do ‘octógono da vida’.

   


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         Deste relato,  surgiu a ideia de CEOs terem um mentor com a ‘função’ de Cutman, tal como defende a abordagem ‘Growth Governance’ (Governança do Crescimento ) para empresas da nova economia.

            A mentoria, por parte de um Cutman, antecede um board de advisors (conselheiros e consultores) e, quando esses já existem, os complementa. Um Cutman faz ao gestor da empresa um trabalho de apoio mais pessoal, sendo como válvula de escape aos desafios e incertezas inerentes a novos negócios, à pressão do crescimento e/ou a uma forte transformação da empresa, principalmente, quando numa  fase disruptiva.

            Neste sentido, Belfort conta no livro, entre seus altos e baixos da carreira, as etapas para se levantar de uma queda, as quais têm elementos muito comuns aos enfrentados no dia a dia de empresas em fase acelerada de desenvolvimento, como, por exemplo, as startups. Ei-las:

  1. FICAR NO CHÃO, pois é necessário absorver o impacto da queda. Mas, tem que ser breve, pois um tempo longo pode ser o suficiente para ‘criar raízes’
  2. SENTAR E TOMAR FÔLEGO, pois é hora para se fortalecer, escolher reagir e não se entregar
  3. ESCOLHER UMA DIREÇÃO E CAMINHAR, pois agir é o mais importante neste momento, mesmo sem muita clareza nas decisões.

            Levando estas lições para o ‘ringue’ empresarial, é nestes momentos, que se revela a importância do papel de um Cutman. Ele é alguém que não está lá ‘dentro das cordas’ e, por isso, menos afetado pelas adversidades, conseguindo, assim, manter a lucidez. Sempre em estado de prontidão, o Cutman, logo ‘atrás das cordas’, com o nariz bem perto, sente a ‘força dos golpes’ e suas consequências, podendo, assim, agir rápido com os ‘curativos’.

            Em resumo, um Cutman deve ser alguém que já esteve lá dentro, que saiba o ‘jogo de corpo’ que um ‘octógono’ requer, que possua o know-how do negócio e, sobretudo, dos ‘socos’ que são despejados sobre as cabeças dos empreendedores. Deve ser alguém que, de fato, já construiu ou que constrói empresas, pois só ‘tomando muitos socos, caindo e levantando’ várias vezes, é que se aprende onde ‘dói’ e como o ‘sangue deve ser estancado’. E este útil apoio é fundamental para manter um ‘lutador no ringue’. E na ‘luta’.

(1): BELFORT, Vitor; NELSON BRASIL, Thomas. Lições de Garra, Fé e Sucesso. São Paulo: Saraiva, 2012