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BARROCO: o exagero que adoramos

A música barroca por natureza deve ser inquietante, cheia de paixões, o contrário do clássico que significa força em repouso, forrma harmoniosa que encontrou o equilíbrio ideal de seus elementos.

12 Abr 2019 - 07h30Por Magnus Behling

Barroco significa algo estranho, exagerado, até bizarro. A música barroca por natureza deve ser inquietante, cheia de paixões, o contrário do clássico que significa força em repouso, forrma harmoniosa que encontrou o equilíbrio ideal de seus elementos. 

O equilíbrio realmente não é uma característica do barroco. Imagine uma igreja de Ouro Preto. Uma parede branca é quase um sacrilégio. Tudo precisa ser muito ornamentado, coberto de ouro. Assim era a música nesta época. Agora se você olhar as partituras não vai perceber isto, pois os ornamentos, os embelezamentos eram geralmente deixados ao encargo do intérprete num caráter improvisatório que lembra o jazz.

Costuma-se dizer que o barroco iniciou em 1600 e terminou com a morte de Bach em 1750. Pra mim, de uma forma bem particular a ópera inaugurou o barroco e a primeira grande ópera, o Orfeu de monteverdi de 1607, marca o início deste período. 100 anos mais tarde um alemão seria o rei da ópera.

Händel foi um dos grandes compositores do período barroco (1600-1750). Assim como Bach nasceu na Alemanha em 1685. Enquanto Bach era um provinciano que jamais deixou o seu país, Händel era cosmopolita, um homem do mundo. Com 26 anos se mudou para a Inglaterra e lá viveu o resto da vida.

Apesar do grande sucesso profissional sabe-se muito pouco a respeito da sua vida particular. Nunca casou nem teve filhos. O compositor podia até ter ataques eventuais de fúria, mas era um sujeito honesto e generoso. Sempre ajudava as pessoas em dificuldade. Tinha uma fé simples e verdadeira. Amava musicar trechos da Bíblia. É autor do famoso oratório “O Messias”. Se tivesse composto apenas esta obra já teria seu lugar assegurado na história da música. Existe, porém muito mais a ser descoberto e apreciado.

Quando Händel chegou a Londres em 1711 a ópera estava florescendo. Durante muito tempo o teatro falado dominou a cena. Basta lembrar Shakespeare, o maior dramaturgo de todos os tempos. Apesar de forte oposição dos intelectuais a ópera italiana estava se popularizando. Händel com suas mais de 40 óperas elevou o gênero a um novo patamar de popularidade. Além de compositor era empresário.

Na época havia uma espécie de parceria público-privada, no caso entre a nobreza e a burguesia, para produzir as dispendiosas óperas. O custo maior era a contratação dos cantores, verdadeiras celebridades. Castrati como Farinelli recebiam muito mais do que os compositores. Como o próprio nome diz os castrati sofriam uma monstruosa extirpação na pré-adolescência que fazia com que a voz adulta permanecesse aguda, mas com grande força. As cantoras por sua vez exerciam uma profissão considerada de reputação duvidosa, mas também eram muito bem remuneradas.

Na época, as pessoas iam à ópera para ver e principalmente ser vistas. As luzes permaneciam acesas na plateia durante todo o espetáculo e os “espectadores” jogavam cartas, conversavam, andavam pra lá e pra cá, comiam e bebiam. Os camarotes tinham cortinas para eventuais encontros mais íntimos. A balbúrdia só parava quando o solista cantava uma grande canção: a ária. Era uma espécie de Cirque du Soleil vocal. Quanto mais agilidade, força e fôlego melhor.

Com o tempo o gosto mudou e a música de Händel foi esquecida. Passados mais de 200 anos finalmente estamos apreciando plenamente a obra deste magnífico compositor.