CMJS - Agosto

A emoção e a regra

Será que o excesso de regras na música erudita afasta novos públicos?

10 Fev 2019 - 06h30Por Magnus Behling

Na música erudita existem várias “regras” escritas ou não e o curioso é que estas não existiram sempre e já criaram muita confusão.

Peças de grande duração como concertos e sinfonias geralmente são formadas por partes menores chamadas movimentos. Estes movimentos parecem peças autônomas, pois tem nitidamente começo e fim. Existe silêncio antes e depois destes trechos. Ocorre que estas partes guardam relação entre si para formar uma estrutura maior. Por esse motivo recomenda-se aplaudir apenas no final da obra, o último movimento. Contudo, isto não foi sempre assim.

Na época de Mozart (1756-1791) era normal a platéia aplaudir cada movimento. Os compositores inclusive gostavam disto, pois poderiam verificar quais trechos agradaram mais e eventualmente repetir com algumas alterações estas fórmulas de sucesso em obras posteriores.

Ainda no século 19 esta prática era corriqueira. O compositor Brahms (1833-1897) ficou profundamente preocupado quando na estréia do seu primeiro concerto para piano ninguém aplaudiu o primeiro movimento. Neste momento ele percebeu que aquela noite seria um grande fracasso. E foi...

Hoje quem se arriscar a aplaudir no meio de uma sinfonia receberá olhares de reprovação. Para o músico, contudo existem situações que atrapalham bem mais do que aplausos sinceros fora de hora. Um celular tocando no meio de uma apresentação pode arruinar toda a sinergia criada entre orquestra e platéia. É impossível não perder a atenção. Neste caso o ideal seria interromper a execução e após um intervalo começar a obra do início. Muitos artistas famosos já criaram situações memoráveis com estes incidentes. 

Outro hábito profundamente deselegante é levantar e sair no meio da apresentação. Veja bem, eu não sou o tipo de pessoa masoquista que fica até no final de um concerto que está detestando. Não custa nada, porém esperar um pouco para num momento de aplausos sair discretamente.

O que não podemos é, conforme alerta Domenico De Masi autor do livro que dá título a esta coluna, sufocar a emoção com excesso de regras.