A Desigualdade Social Brasileira

A desigualdade social brasileira, provavelmente, seja umas das principais causas das dificuldades do Brasil avançar no ranking das economias prósperas, empacado há muito, na 8ª posição mundial.

04 Fev 2019 - 06h30Por Emílio Da Silva Neto
A desigualdade social é milenar e universal. Contudo, é possível que suas consequências nocivas nunca tenham sido tão evidentes como hoje, em qualquer lugar do mundo. É difícil, assim, entender por que aqui, no Brasil, a discussão desse tema seja tão dispersa.
 
Segundo o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, o Brasil é o décimo país mais desigual do mundo:  5% dos mais ricos possuem uma renda comparável a de todo o resto da população. Se ainda ficou difícil medir o tamanho do abismo, eis outro dado descomunal: 6 pessoas juntas abocanham uma fatia igual a de 100 milhões dos brasileiros mais pobres.
 
A desigualdade social brasileira, provavelmente, seja umas das principais causas das dificuldades do Brasil avançar no ranking das economias prósperas, empacado há muito, na 8ª posição mundial. Quando se compara o Brasil com países modelo, como Suécia, Suíça e Japão, com altíssimos IDHs-Índices de Desenvolvimento Humano, nota-se pouquíssima concentração de renda nestes países.
 
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Há um medo generalizado, no Brasil, de se usar a palavra ‘desigualdade’, pois muitos pensam que combatê-la signifique que todo mundo deva ser rigorosamente igual, com o mesmo salário e as mesmas contas a pagar. Às vezes, até parece que uma mera menção a ‘diminuir a desigualdade’ leva alguns a pensar sobre uma revolução e a classe média até já treme de medo de perder suas ‘migalhas de privilégio’ conquistadas a ‘duras penas’. Neste sentido, vale lembrar que Dinamarca, Finlândia, Japão, Canadá e tantos outros países nunca passaram por uma revolução bolchevique. 
 
É claro que ter uma economia forte é importante, mas só isso não resolve. Taxas de homicídio, população carcerária e mortalidade infantil crescem na medida em que aumenta a distância entre os mais ricos e os mais pobres de uma população, inclusive em nações ricas. Já formação escolar, expectativa de vida e confiança nas outras pessoas aumentam em países mais igualitários. 
 
A desigualdade é o começo do fim da meritocracia. Por isso, a mobilidade social, ou seja, a capacidade de uma pessoa mudar de classe é maior em países mais igualitários.
 
Uma das formas para resolver os problemas brasileiros, quanto à nossa calamitosa concentração de renda, envolve o ensino profissionalizante, este, amplo, irrestrito e de qualidade, de resultados muito mais perenes que tributações progressivas, taxações de fortunas, renda mínima e políticas de inclusão, por exemplo. 
Mesmo para os que defendem a tese de enfrentamento da desigualdade no Brasil, através do ‘crescimento do bolo para depois repartir’, a verdade é que o ‘bolo já é grande’, mas pouquíssimos o ‘degustam’ em sua plenitude.
 
A expansão do ensino técnico e profissional, de nível médio, pode muito contribuir para o progresso do país, não só proporcionando profissionais instruídos e hábeis às empresas, como, também, envolvendo classes menos favorecidas, o que, em matéria de educação, é o primeiro dever do Estado.
 
Cumpre-lhe, portanto, dar execução a esse dever, fomentando institutos de ensino profissional e subsidiando os de iniciativa dos Estados, dos Municípios e dos indivíduos ou associações particulares e profissionais. Por sua vez, cabe às empresas e sindicatos econômicos criar, na esfera de suas especialidades, escolas de aprendizes, destinadas aos filhos de seus colaboradores ou de seus associados. 
 
Só assim, superando enfoques de assistencialismo e de preconceito social contido nos primeiros modelos de educação profissional do país, pode-se promover uma intervenção social crítica e qualificada, tornando-a um mecanismo para o favorecimento da inclusão social e democratização dos bens sociais da sociedade brasileira. 
 
Com competências profissionais adquiridas, o trabalhador pode prestar serviços de maior qualidade e a empresa onde trabalha se expandir em clientes e faturamento, permitindo, em última instância, o pagamento de remunerações crescentes. Ou seja, a educação profissional passa a assumir valor estratégico para o desenvolvimento nacional, com  aumento de acesso às conquistas científicas e tecnológicas, por parte das ‘classes desprovidas’, elevação das médias salariais dos trabalhadores qualificados e, e como, resultado, redução da desigualdade social, devido ao impacto direto na capacidade de gerar renda.
 
Assim, em termos de educação profissional e tecnológica, o elemento diferencial da gênese de um projeto de desenvolvimento nacional - soberano, sustentável e inclusivo - deve visar não só atender às novas configurações do mundo do trabalho, mas, principalmente, contribuir para a elevação da qualificação e renda dos trabalhadores. Nessa direção, vale ressaltar  que o espaço social das práticas de ensino, pesquisa e inovação desenvolvidas nessa área de formação técnica profissional deve possuir características diferenciadas daquelas desenvolvidas no espaço do mundo acadêmico de nível superior.
 
Em resumo, trabalhar a nossa gritante desigualdade social passa, necessariamente, pela melhoria da formação profissional dos ‘excluídos’, com reflexo direto e rápido na distribuição de renda da população, mudando o ‘retrato’ do Brasil.